Os romanos deixaram diversos vestígios da sua presença em Portugal. Alguns deles continuam imponentes, impassíveis à passagem de dois milénios. São lugares perfeitos para as crianças fazerem uma viagem ao Império Romano

Estradas, templos, ruínas de cidades, aquedutos, teatros, pontes, minas e até barragens: há muitas construções romanas dignas de uma visita em Portugal. Estes locais são sempre programas interessantes para quem gosta de história. Mas ganham particular pertinência quando os miúdos começam a ouvir falar sobre o Império Romano na escola. Viajar para aprender é muito divertido!

Se for possível uma visita a Itália, com certeza o assunto ficará bem vincado. Afinal, nenhuma explicação factual poderá igualar a impressão que o Coliseu de Roma ou de Verona provocam. Leia também Roteiro em Roma: césares megalómanos e Um dia em Verona, a cidade de Romeu e Julieta.

As crianças portuguesas começam a estudar a romanização no 5º ano, na disciplina História e Geografia de Portugal. Nesta fase, devem identificar as acções de resistência ao povo estrangeiro, altura em que pode ser engraçado dar um saltinho a Viseu, terra de Viriato. Para além disso, espera-se que os meninos – com 9 ou 10 anos – identifiquem alguns aspectos da herança romana na Península Ibérica.

 

Coliseu em Roma

 

No 7º ano, volta a abordar-se o tema com maior profundidade, na disciplina de História. Já com 12 ou 13 anos, os alunos já terão maturidade para compreenderem o tipo de economia (urbana, comercial, monetária e esclavagista) e os elementos unificadores do império (como a língua e o Direito). Entre outros objectivos, espera-se também que caracterizem a arquitectura romana.

As avançadas técnicas de construção são bem visíveis na ponte de Trajano, em Chaves, por exemplo. Afinal, ela só foi fechada ao trânsito há cerca de 20 anos, apesar da sua provecta idade. Em Conímbriga – lugar cuja visita devia ser obrigatória a todas as escolas – é possível perceber os principais edifícios, políticos, civis e religiosos, de uma cidade romana.

Quer numa quer noutra fase de ensino, há vários lugares para viajar com as crianças em Portugal que permitem que o Império Romano ganhe vida e significado. Venha descobrir a riqueza da antiga Hispânia, num roteiro que começa no Norte do país. Clique nos links, para mais informação sobre horários e preços.

 

Ponte de Trajano em Chaves (Aquae Flaviae)

Ponte de Trajano em Chaves

A minha fotografia não faz justiça à beleza da ponte

 

As duas margens do rio Tâmega são ligadas por uma imponente ponte romana, na cidade de Chaves. Com praticamente dois mil anos, a Ponte de Trajano ligava duas cidades de máxima importância no império: Bracara Augusta (actual Braga) e Asturica Augusta (actual Astorga), na província espanhola de Castilla y Léon.

Esta obra-prima da engenharia estende o seu tabuleiro de granito ao longo de quase 150 metros. Ainda se vêem 12 dos seus 18 arcos originais: nove no leito do rio e três em terra. Os restantes ficaram soterrados nas obras da década de 1930 e na construção de algumas casas.

A ponte é “guardada” por duas colunas, com inscrições de homenagem ao imperador Trajano e ao imperador Vespasiano, existindo uma terceira no museu local, encontrada debaixo das águas, que enaltece os povos locais. Junto com as termas, a Ponte de Trajano é um dos melhores legados romanos da antiga Águas Flávias, resistindo a históricas cheias e às fortes correntes do rio.

 

Braga (Bracara Augusta)

Braga romana

O evento “Reviver Bracara Augusta” acontece anualmente, em Maio

 

Braga foi construída sobre a cidade romana fundada por Augusto. Há vestígios da Bracara Augusta por todo o centro histórico: sempre que se fazem obras, encontram-se ruínas e objectos da época.

Basta entrar nas Frigideiras do Cantinho, uma casa que vende frigideiras desde o século XVIII (pastel de carne, envolto em massa folhada, que Júlio Dinis elogiou) e olhar para o chão. Sob o chão envidraçado do café, vê-se os restos de um hipocausto, sistema usado para aquecer a água do balneário privado da casa.

Se alguns vestígios estão à vista de todos, há muitos outros escondidos, mas todos permitem vislumbrar a história do império romano. Por exemplo, no Largo de S. Paulo, encontraram vestígios de vários muros romanos, hoje assinalados no pavimento. Na própria Sé de Braga existe uma inscrição romana, que evoca o culto a Isís em Bracara Augusta!?

Mais locais romanos em Braga?

 

marcos miliários nas estradas que ligavam o Império Romano

No distrito de Braga, é possível ver a antiga estrada romana, com marcos miliários

 

As Termas do Alto da Cividade, um edifício para banhos frios e quentes do século II, que tinha ainda uma palestra – local destinado à prática de exercício físico. Existe também a Domus da escola velha da Sé, ruínas de uma casa romana descobertas sob a antiga escola primária da freguesia da Sé. A domus do século I, com alterações posteriores, foi musealizada e hoje é visitável.

A Fonte do Ídolo, edifício religioso do século I que, pensa-se, estaria consagrado ao deus Tongoenabiago. O santuário, que funcionava como fontanário, fica num grande afloramento de granito e estaria ligado ao culto da água.

Este roteiro não fica completo sem uma visita ao Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, já que reúne todas as peças arqueológicas desde o Paleolítico até à Idade Média, incluindo vestígios romanos como marcos miliários, câmaras fúnebres de incineração e pequenos utensílios domésticos.

 

Condeixa-a-Velha (Conímbriga)

Casa dos Repuxos, em Conímbriga

 

Depois de ocupada pelas tropas romanas em 139 a.C., Conímbriga, a cerca de 13 km de Coimbra, tornou-se a próspera capital da província da Lusitânia. No século seguinte, a cidade cresceu sob a batuta de Augusto, ganhando estruturas fundamentais a uma urbe romana, como o fórum, o anfiteatro, as termas (existem três) e, mais tarde, uma basílica de três naves.

Mas o mais notável, e encantador, nesta Conímbriga é a arquitectura doméstica, isto é, as insulae e as sumptuosas domus. Construções como a Casa dos Repuxos guardam memórias do esplendor do império romano: o seu belo jardim central, com a estrutura hidráulica original com mais de quinhentos repuxos, está rodeado por um magnífico conjunto de mosaicos com cenas de caça e mitológicas, as estações do ano, monstros, aves e animais marinhos.

Existem vestígios de outras grandes casas, como a de Cantaber (a maior da cidade), a da Cruz Suástica, com os seus mosaicos geométricos, a do Tridente e da Espada ou a dos Esqueletos.

A visita aos locais arqueológicos, ao ar livre, é complementada com o Museu, que guarda os objectos encontrados nas escavações e explica a vida quotidiana e administrativa da cidade romana, os hábitos religiosos, a arquitectura, a decoração, a moeda, etc.

De resto, esta região da Serra do Sicó é rica em vestígios romanos. Pode ainda visitar o Castellum de Alcabideque (a 5 km de Conímbriga), o Centro Interpretativo do espaço muralhado de Soure (14 km), a villa romana do Rabaçal (15 km), o Complexo Monumental de Santiago da Guarda (22 km) e a Ponte de Cal (25 km), para mencionar apenas alguns. Podem encontrar todas as informações no site Villa Sicó.

 

Museu PO.RO.S (Condeixa-a-Nova)

museu dedicado ao Império Romano

 

Conhecemos o Museu PO.RO.S graças a uma funcionária simpática de Conímbriga, que nos sugeriu. Foi uma linda surpresa. Melhor ainda: no primeiro domingo do mês, a entrada é gratuita até às 14h00 #ficaadica.

O PO.RO.S – Museu Portugal Romano em Sicó é um espaço interactivo recente (abriu em 2017), que permite a miúdos e graúdos viajarem até à época dos romanos. À entrada há mesmo um túnel que simula uma viagem no tempo e, logo depois, uma Sala Imersiva com os momentos da História até à chegada dos romanos à região.

A exposição divide-se em 12 salas temáticas, com artefactos arqueológicos e também muitos conteúdos multimédia. Por exemplo, na sala Legiões, Conquista e Poder aprende-se tudo sobre as tropas romanas: há jogos para vestir um centurião ou para se colocar na pele de um, virtualmente.

Muitas facetas do Império Romano estão retratadas, de alguma forma: do culto dos deuses à língua, da alimentação às técnicas de construção, dos banhos públicos aos espectáculos. Um recanto inesperado é dedicado à intimidade, com cenas mais ou menos explícitas: para ver estes conteúdos, é preciso espreitar por um monóculo. Sugiro que espreite, antes de decidir o que será adequado para os mais novos.

O museu PO.RO.S é tão divertido e interessante que foi muito difícil arrastar o meu pequeno explorador dali.

 

Ruínas de Ammaia, em Marvão

cidade romana de Ammaia

 

Em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, a cerca de 5 km de Marvão, fica Ammaia, o mais “importante vestígio” da época do Império Romano na região do norte alentejano, de acordo com a fundação responsável pelo espaço. Elevada a Civitas por volta do ano 45 e a Mvnicipivm ainda durante o século I, os primeiros dados sobre a cidade remontam ao reinado de Lúcio Vero (166 d.C.).

Apesar de conhecidas desde sempre pela população, só se percebeu a importância destas ruínas da antiga cidade romana de Ammaia, perdida no vale da Aramanha, em pleno século XX. Até então, muitas das suas pedras serviram para construir outros lugares e monumentos, mas hoje o local está a ser escavado e investigado por uma equipa internacional.

Já se identificou a localização do anfiteatro, do fórum, do templo e das termas. Junto da bilheteira fica um pequeno museu, com parte do espólio descoberto durante as escavações arqueológicas: moedas, epígrafes, cerâmicas, fragmentos de braceletes e lucernas.

Infelizmente, achei-o um pouco lúgubre e abafado. Quando chegámos, o funcionário estava a conversar com o que pareceu um amigo e, a avaliar pelo forte cheiro a tabaco, estaria a fumar. Estivemos muito pouco tempo no museu, por causa disso. O isolamento e escasso número de visitantes de Ammaia não devia justificar este comportamento, proibido em espaços museológicos.

 

Templo romano de Évora (Ebora Liberalitas Júlia)

Templo edificado pelo Império Romano

© iStock Infelizmente não tenho nenhuma foto decente do templo

 

Este templo de mármore e granito, popularmente conhecido como “Templo de Diana”, remonta igualmente ao século I, época em que Évora era conhecida como Liberatias Iulia. Construído no centro do fórum da cidade, e com alterações nos séculos seguintes, as suas ruínas foram as únicas sobreviventes romanas, após as invasões germânicas do século V.

Na Idade Média, o que restou do templo romano foi incorporado numa das torres do Castelo: as colunas, arquitraves e base ficaram incrustadas nas paredes. Nos séculos seguintes, foi usado como um açougue, o que o protegeu de maior destruição.

Até que, em 1871, o arquitecto italiano Giuseppe Cinatti foi contratado para recuperar o templo que se pensou ser dedicado à deusa Diana (daí o nome popular) mas que, na verdade, seria consagrado ao culto imperial. Removeram-se os acrescentos medievais, restaurou-se o edifício e, hoje, o Templo Romano de Évora é um magnífico símbolo do período romano na Península Ibérica. Dica: o acesso ao templo é gratuito, ao contrário do que se propagandeia em vários sites.

Ainda no centro histórico, vale a pena visitar também o Museu de Évora que, para além de uma colecção de pintura, possui algumas estátuas romanas e aras votivas (pedras erigidas em memória de alguém).

Outros vestígios romanos em Portugal

Para além dos lugares já mencionados, há outros um pouco por todo o país que testemunham a influência do Império Romano e que ainda não conhecemos.

A sul podemos apontar a villa romana de Milreu (a cerca de 8 km de Faro, no Algarve), a ponte de Vila Ruiva e a villa de S. Cucufate, ambas no distrito de Beja. Um pouco mais acima, mas ainda a Sul do rio Tejo, encontramos as ruínas romanas de Miróbriga, cidade que se estende por mais de 2 km, com ruínas de casas, ruas, termas, ponte, um fórum e um hipódromo. Ainda no distrito de Setúbal ficam as ruínas de Tróia, que constituem o “maior complexo de produção de salgas de peixe conhecido no mundo romano”.

Em Lisboa, é possível visitar as ruínas de um Teatro Romano, junto ao Castelo de S. Jorge. Um pouco mais a Norte, no distrito de Viseu, encontra um balneum romano na margem esquerda do rio Vouga, em São Pedro do Sul. Esqueci-me de algum lugar importante? Acrescentem nos comentários.

 

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