castanhas na serra da Padrela

O Outono chegou, com a sua pátina doirada e tapetes de folhas a cobrirem as ruas. A dias de se comemorar o São Martinho, aqui fica uma rota das castanhas, para um magusto caloroso

Os castanheiros pintam-se de amarelo e castanho, à medida que o Outono avança, os dias ficam mais curtos e as temperaturas pedem lareira. Portugal prepara-se para o Dia de São Martinho (11 de Novembro), em honra do santo que morreu neste dia.

Diz a lenda que, num dia frio e chuvoso, Martinho seguia a cavalo quando encontrou um mendigo. Vendo-o a tremer, cortou o manto com a espada, cobrindo-o com uma das partes. Mais à frente, encontrou outro pedinte, com quem partilhou a outra metade. Sem nada que o protegesse do frio, o soldado romano continuou viagem, mas, nesse momento, as nuvens negras deram lugar ao sol.

A narrativa explica o fenómeno conhecido como “Verão de São Martinho”. Graças a esta melhoria climatérica, temporária e milagrosa, os magustos multiplicam-se um pouco por todo o país, com fogueiras e castanhas assadas (este ano, a pandemia vai arruinar a tradição, snif, snif).

Outono em Portugal

Na verdade, o São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa. Em Portugal, para além do magusto, é tradição beber-se água-pé, jeropiga e provar-se o vinho novo. Como diz o ditado popular, “em dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.

Inspirada no tema de Novembro do 8on8 – Festas e Festivais, preparei uma rota das castanhas por terras com tradição. Sabiam que 80% da área ocupada por castanheiros fica na região de Trás-os-Montes?

Concentram-se sobretudo em volta das Denominações de Origem Protegida (DOP), a saber, Castanha DOP da Terra Fria (distrito de Bragança) e Castanha DOP da Padrela (distrito de Vila Real). Para além de serem produzidos na área geográfica, o fruto tem que ser colhido do chão, sem recurso a métodos mecânicos ou outros para forçar a sua queda da árvore.

Preparem o estômago: é tempo de comer castanhas.

Castanhas no distrito de Bragança (DOP Terra Fria)

Bragança na rota das castanhas
Em Bragança, não deixe de visitar o Museu da Máscara Ibérica

O castanheiro está muito presente na paisagem transmontana. Sagrada para os celtas, esta árvore nobre inspirou poetas e autores. Por exemplo, tem presença muito forte na obra de Aquilino Ribeiro, enquanto Miguel Torga diz que se trata de uma árvore com a “idade do mundo”, em Novos Contos da Montanha.

No distrito de Bragança, a castanha é rainha em várias festas e feiras, com destaque para Macedo de Cavaleiros, Bragança (por exemplo, aldeia de Terroso), Vinhais e Vimioso. Vinhais organiza há 14 anos a festa Rural Castanea, para celebrar o produto economicamente mais importante do concelho. A edição de 2020 será online, face ao contexto que vivemos.

Leia também Parque Biológico de Vinhais, um retiro no Montesinho

Em Bragança fica a maior empresa de transformação de castanha em Portugal e uma das maiores da Europa (Sortegel) que, para além de possuir quintas próprias, recebe o fruto de mais de um milhar de produtores locais. Outra curiosidade, que só descobri graças a este post, é que Bragança possui uma oficina da castanha, no centro histórico, com mercearia e até um pequeno museu (na próxima visita vou lá conferir).

#dica: uma vez comi um puré de castanhas em Bragança, que era do outro mundo. Normalmente acompanha pratos de carne mas se, como eu, não for carnívoro(a), pergunte se servem assim mesmo. Para saber um pouco mais sobre o castelo de Bragança, espreite Castelos de Portugal, 8 sugestões encantadoras.

Castanhas no distrito de Vila Real (DOP Padrela)

Capital da castanha
A surpreendente igreja de Carrazedo de Montenegro

Os concelhos de Vila Pouca de Aguiar e Valpaços, no distrito de Vila Real, têm igualmente tradição na castanha, sobretudo na espécie judia. Uma pequena aldeia de Valpaços, Carrazedo de Montenegro, é mesmo conhecida como a “Capital da Castanha”.

Castanhas de Carrazedo / São bem boas, ó patrão! / Assim, como as raparigas, / Quando se lhes põe a mão (António Cabral, in A castanha: Saberes e Sabores).

Para além de uma linda igreja, dedicada a S. Nicolau e surpreendentemente grande para esta localidade, não há muito para visitar em Carrazedo de Montenegro. Apesar de algumas placas indicarem um Museu da Castanha, encontrámos o espaço fechado (funciona nas instalações da Junta de Freguesia, onde nos comunicaram que está em obras).

castanha judia

É uma delícia conduzir pela estrada N206, que liga Vila Pouca de Aguiar a essa pequena localidade, nesta época do ano. Árvores de todas as cores acompanham-nos, exibindo orgulhosamente toda a paleta de cores do Outono, entre elas, muitos castanheiros. A serra da Padrela concentra muitos desses soutos, com castanheiros centenários e o chão coberto de ouriços.

#dica: a cerca de 8 quilómetros de Carrazedo de Montenegro (EN 206), encontra a Agromontenegro, onde pode comprar castanha muito mais barata do que no supermercado.

Castanhas no distrito de Portalegre (DOP Marvão-Portalegre)

Portalegre produz castanhas

Seguimos para Sul, nesta rota das castanhas saborosa e original. Um destino menos óbvio, quando se fala de castanhas, é o Alentejo. No entanto, existe por lá uma região que produz o fruto, a única mancha de castanheiros no Sul do país, que inclui as lindas vilas de Marvão e Castelo de Vide, bem como a capital de distrito, Portalegre.

Existem ali várias empresas que vendem não só castanha – nas variedades bárea, clarinha e bravo -, mas também produtos derivados, como farinha e farinheira de castanha, castanha pilada ou em calda de vinho abafado. Depois, há os restaurantes que honram este produto regional com tantos pratos maravilhosos, da sopa de castanha ao porco com castanha.

Na medieval e encantadora vila de Marvão faz-se uma variante da sericaia com castanha (doce tradicional alentejano habitualmente servido com ameixa). Se pretende explorar a região, não deixe de ler:

Marvão, a vila mais alta do Alentejo

Visitar Portalegre, a terra das tapeçarias

Road trip no Alto Alentejo

sericaia com castanha
Duas versões de sericaia (a mais escura leva castanha)
rota da castanha

Esta rota das castanhas faz parte do 8on8, um projecto colectivo que une lindas viajantes em volta de um tema comum, no dia 8 de cada mês. Espreitem os restantes textos sob o tema “Festas e Festivais”, inspirem-se e partilhem:

Let s Fly Away7 lugares para passar o Natal no Brasil com toda família

Destinos Por Onde Andei…Preparativos de Natal no Canadá

Chicas Lokas na EstradaFestas tradicionais no Rio de Janeiro

Viajante EconômicaFeira de Natal: um passeio que sempre encanta

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20 Comentários

  1. chica

    Que lindas fotos e essa festa que se aproxima deve ser linda! beijos, tudo de bom,chica

  2. Cecilia

    Que interessante saber sobre esta Rota das Castanhas, de Portugal, Ruthia. Não conhecia a história de São Martinho e achei linda. Parabéns pelo post, como sempre super completo e caprichado. Beijos

    1. Ruthia

      Normalmente, é um dia bem festejado por todo o país mas, infelizmente, 2020 não é um ano comum…

  3. Murilo Pagani

    Adorei a sugestão de incluir a Rota da Castanha em um roteiro em Portugal.

    As cidades me pareceram lindas, sem falar que as comemorações a São Martinho deixa a viagem ainda mais especial!

    Obrigado!

    1. Ruthia

      Olha, na verdade não existe uma “rota das castanhas”, fui eu que inventei para unir as terras com tradição nesse fruto. Ainda registo a ideia, haha

  4. Marjorie Lopes

    Portugal realmente é um país de se voltar diversas vezes e ainda sem conhecer tudo, já quero incluir a Rota das Castanhas em um roteiro no país. Achei super interessante a história, fora que o outono é lindo!

    1. Ruthia

      Eu gosto muito dos lugares onde as estações do ano são bem marcadas na paisagem e o Outono tem essa coisa linda dos doirados e amarelos, né?

  5. GISELE PROSDOCIMI

    Fantástica esta Rota das Castanhas que vocês percorreram, além do fruto poder ser apreciado em vários pratos, o roteiro também conta com destinos muito interessantes.
    Ótima a dica de comprar castanhas mais em conta na Agromontenegro, deve ser uma economia que compensa bastante, ainda mais para quem deseja comprar em maior quantidade.
    A primeira vez que experimentei castanhas portuguesas foi em Roma, bem no inverno europeu, achei muito deliciosas e passei a comprar aqui também no Brasil na época do Natal.

    1. Ruthia

      Tenho uma amiga brasileira que tentou fazer castanhas no forno e teve uma má experiência porque fez um golpe pequeno… uma castanha explodiu (literalmente) nas mãos dela. Que susto, haha
      Acho que castanhas não combinam com o vosso Natal, Gisele. Está muito calor nessa altura, por aí!

  6. Luciana Rodrigues

    Aqui na Itália tem várias cidades legais que também dá para fazer a Rota das Castanhas. Acho as árvores lindas, mas que pena que não gosto de castanha kkkkk.

    1. Ruthia

      Eu gosto sobretudo de castanhas assadas (e bem acompanhadas por um vinho do Porto), cozidas também não sou fã.

  7. Marcela

    Que delícia essa rota das castanhas em Portugal! Essa época do ano sempre reserva coisas boas, onde quer que a gente vá 🙂

  8. Angela Martins

    Nossa, eu amo as castanhas portuguesas! Achei incrível essa rota. Super dica! Eu não conhecia e já fiquei com vontade de incluir no roteiro!

  9. Lulu+Freitas

    Achei incrível o seu texto sobre a rota da castanhas. Um olhar muito original sobre Portugal! E quanta foto linda!!! Não conhecia a história e tradição envolvendo São Martinho. Ele não é um santo muito popular aqui no Brasil. Fiquei curiosa sobre água-pé e jeropiga. São bebidas equivalentes à cachaça brasileira?

    1. Ruthia

      Lulu, a vossa cachaça é muito forte. “A água-pé resulta da adição de água ao bagaço de uva e aguardente, com baixo teor alcoólico. Outra bebida típica desta época é a jeropiga (vinho abafado) obtida a partir da adição de aguardente ao mosto de uva para parar a fermentação, tornando-se numa bebida com teor alcoólico mais elevado que a água-pé.”

  10. Carla Alexandra Fernandes Mota

    Que giro essa Rota das Castanhas! E que bem me soube aprender um bocadinho mais hoje ao ler este teu texto. Muito interessante, Ruthia, como sempre. Bjinhos

  11. Denise+Barreto

    Linda a história de São Martinho! Deve ser incrível percorrer a Rota da Castanhas, admirando as belezas e provando iguarias. Aprendi um pouco mais sobre a cultura portuguesa lendo seu post!

    1. Ruthia

      É uma tradição bem portuguesa

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Ruthia Portelinha

Viajante, chocólatra, leitora compulsiva, mãe. Está a aprender chinês porque sim.

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