Aldeia do Juízo, na paz do interior

Na aldeia do Juízo há mais ovelhas que habitantes. Os que permanecem, já de belas cãs brancas, saúdam o pequeno explorador com particular entusiasmo, já que há 34 anos que não nasce aqui uma criança.

No silêncio do interior, entre oliveiras e carrascos (como aqui chamam às azinheiras), a aldeia do Juízo repousa sobre um antigo povoado romano, como nos recordam algumas gravações em pedras, fornos e lagares. Em tempos, habitou também aqui um juiz, lenda ou história da qual deriva a toponímia local.

A graça do nome inspirou outras curiosidades, nomeadamente um cano onde os deficitários de siso devem bater três vezes com a cabeça, para que o juízo entre. Tal como muitas outras localidades do interior do país, a aldeia foi perdendo importância, serviços e habitantes: parecia que estava a morrer.

Mas o esquecimento a que parecia votada a minúscula aldeia de apenas 15 moradores, no concelho de Pinhel e distrito da Guarda, foi contrariado pela visão de José Guerra e da esposa. A reforma trouxe-os de volta à sua aldeia-natal, mas não para aquecer os pés à lareira (ainda que esta saiba muito bem, aqui, nos dias de frio).

Aos poucos, foram recuperando as casas da família, mantendo a tradicional fachada em pedra, mas dotando o interior com todas as comodidades do mundo moderno. Nascia o turismo de aldeia Casas do Juízo e, com isso, as ruas ganhavam nova vida, sobretudo aos fins-de-semana. Hoje existem oito casas, em dois condomínios fechados, mas outras estão em fase de recuperação: Casa da Roseira, Casa do Telheiro, Casa do Palheiro, Casa das Talhas, Casa do Museu, Casa da Capela, Casa do Juiz e Casa do Forno.

 

 

Chegada à pequena e ajuizada aldeia

Uma sombra de sobretudo pesado abeirou-se do carro, quando chegámos à aldeia do Juízo. A noite caía e o céu abrira-se em par, desabando em águas pesadas. A hospitalidade do senhor José não se esgota em palavras. É comum receber os visitantes com um prato de ajuizados – bolinhos de amêndoa – e um cálice da Pinga do Juízo.

Nós ficámos na casa da Roseira, climatizada, com três quartos, um deles com casa de banho privativa, uma grande cozinha com mesa de jantar e televisão (que não chegámos a acender), para além de um solário com várias mesinhas, ideal para tomar um chá e ler um livro, nos gélidos dias de Inverno.

O ambiente acolhedor torna as Casas do Juízo uma opção perfeita para um grupo de amigos, um casal ou uma família. Em conjunto, têm capacidade para 20 adultos e 10 crianças. Para além de uma paz bucólica, este turismo rural inclui uma piscina exterior, que é aquecida e coberta no Inverno, uma zona de lazer e churrasqueira.

 

dar de comer ao burrito

interior das casas do juízo

 

Nesse dia, pouco mais fizemos que descansar mas, na manhã seguinte, acordámos cheios de energia para explorar as redondezas. Estes pintassilgos madrugadores tiveram oportunidade de ver a aldeia acordar e ajudar a dar de comer às galinhas, à cabrinha e ao burrito que fazem parte da quinta, e que tem ainda uma pequena horta e árvores de fruto.

A somar a um cachorro que “adoptou” o meu filho, e que ele prontamente baptizou com um nome de Pokémon, estava garantida a alegria do fim-de-semana.

O que fazer na região

Quem me acompanha aqui sabe da minha predilecção por lugares genuínos, com alma e História. Ora, apesar de fora das rotas turísticas, o Juízo está numa posição central em relação a várias aldeias históricas beirãs. Marialva é a mais próxima, a cerca de 12 km, Trancoso fica a 25 km, Figueira de Castelo Rodrigo a 30, Almeida a 45, Castelo Mendo a 47 e Sortelha a 89 km.

No concelho de Pinhel, vale também a pena visitar Cidadelhe, a que José Saramago chamou calcanhar do mundo, na sua “Viagem a Portugal”. A aldeia é a entrada sul do Vale do Côa, classificada pela UNESCO como património mundial, graças ao conjunto de gravuras e pinturas rupestres. A própria aldeia do Juízo tem apontamentos históricos interessantes, que o senhor José terá todo o prazer de desvendar.

 

caminhada

detalhe do caminho

 

O melhor desta estadia foi apreciar a cultura serrana, os quintais pitorescos, as casas de granito, algumas já em ruínas, as ruas empedradas que ocasionalmente são invadidas por rebanhos de ovelhas. E alargar a vista pela paisagem beirã, respirar ar puro, cumprimentar habitantes como o senhor Justino, que revelam tanta alegria por receberem gente na sua terra.

Para quem gosta de mergulhar na natureza, gostará de saber que parte da Grande Rota das Aldeias Históricas de Portugal, a GR22 entre Castelo Rodrigo e Marialva, passa nesta aldeia ajuizada. E que, a menos de 20 km, pode desfrutar das Termas de Longroiva.

O nosso anfitrião fez questão de nos acompanhar numa caminhada leve pelo Carrascal do Juízo, bosque de azinheiras protegido, por causa das suas singulares árvores, cobertas de líquenes. O percurso passa pela ribeira do Porquinho, quase sem água, e por campos agrícolas. Dois amigos até apanharam boleia de tractor de volta à aldeia.

Gastronomia regional

Azeite, vinho e amêndoa é a santa trindade local. Aliás, o concelho de Pinhel é famoso pela qualidade dos seus vinhos, como tive oportunidade de comprovar naquele fim-de-semana. A isto soma-se o mel, os enchidos e o requeijão.

Dependendo da época do ano, é possível participar em várias actividades tradicionais como cozer pão no forno comunitário (Novembro a Março), fazer bolinhos de amêndoa, assistir à malha do centeio (Julho), fazer vinho em lagar de vara (Setembro) ou requeijão (Novembro a Junho). E depois, provar essas maravilhas.

Uma vez que a Taberna do Juiz – que parece completar a experiência das Casas do Juízo – estava fechada durante a nossa visita, os anfitriões prepararam uma generosa mesa com muitos petiscos regionais. Foi um momento agradável, abrilhantado com um músico local.

Para quem pretende cozinhar durante a sua estadia, saiba que o supermercado mais próximo está a 17 km de distância: se o objectivo é descansar, carreguem mantimentos de casa. Existe, no entanto, um padeiro que passa diariamente na aldeia.

 

cano do Juízo

cão da aldeia

Como chegar

A pequena aldeia do Juízo não fica longe do IP2, que tem um bom piso. Mas não está nada bem servida quanto a transportes públicos. A única opção será chegar de comboio a Vila Franca das Naves, a cerca de 30 km, e depois (eventualmente) apanhar um táxi, o que deverá ficar pouco económico.

O melhor será mesmo ir de carro. O Porto fica a cerca de 220 km: deve seguir a A1 em direcção ao Sul, sair para a A25 em direcção a Viseu e depois apanhar o IP2 (um pouco depois de Celorico da Beira). Por fim, deve apanhar a Estrada Nacional 102 até ao Juízo.

Lisboa fica a cerca de 370 km: siga pela A1 para Norte, saia para a A23 em direcção a Abrantes/Castelo Branco/Torres Novas, e siga até ao fim da auto-estrada, perto da Guarda. Aí deve convergir para a A25 e depois apanhar o IP2 e seguir o mesmo trajecto anteriormente descrito.

 

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2020-02-03T12:00:03+00:00

20 Comments

  1. elvira carvalho 27 Janeiro, 2020 em 21:43 - Responder

    Um local muito interessante e cheio de encanto.
    Abraço e uma boa semana

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:02 - Responder

      Encantador e original, Elvira. Imagina os habitantes? Podem dizer que são os mais ajuizados do país 🙂

  2. Beatriz 28 Janeiro, 2020 em 23:54 - Responder

    Que maravilha Ruthia! Na minha próxima viagem a Portugal quero ter tempo suficiente para conhecer tudo isso.
    Estive agora no Uruguai que, por incrível que pareça tem 14 milhões de cabeças de gado nos pastos e apenas 3 milhões de habitantes no país inteiro….. não à toa eles amam churrasco!

    Bjs

    Bia
    http://www.biaviagemambiental.blogspot.com

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:03 - Responder

      Caramba. Isso são mais de 3 cabeças de gado por habitante. O que achou do país, aparte desse detalhe?

  3. Francisco Oliveira 3 Fevereiro, 2020 em 10:48 - Responder

    Um lugar com bastante beleza natural e bastante interessante.
    Uma boa semana.

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:04 - Responder

      Uma aldeia muito tranquila mesmo. O ideal para fugirmos do stress da vida moderna.

  4. Vitor Martins 4 Fevereiro, 2020 em 12:43 - Responder

    Que lugar extraordinário!! Obrigado pelas dicas, quero conhecer em breve.

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:04 - Responder

      Levem os miúdos, que eles vão adorar tanto espaço para correr

  5. Calu 4 Fevereiro, 2020 em 15:15 - Responder

    Meus aplausos entusiasmados ao senhor José e esposa que reacenderam a história da aldeia e ainda aumentaram as comodidades. Fico simplesmente apaixonada por logradouros como este. Amo desfrutar destas simplicidades prenhes de sabores e saberes.Um passeio encantador pelo sítio e suas gentes enfeitado com a distinta presença de Pókemon.

    Abração, Ruthia.
    Calu

    Obs: conte ao Pedro que meu neto Felipe é também fã do Pókemon.

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:05 - Responder

      E que falta faz lugares assim na nossa vida, onde possamos parar, realmente pa-rar.
      Direi ao Pedro, sim. Beijinho

  6. Mariazita 4 Fevereiro, 2020 em 16:59 - Responder

    Querida Ruthia
    Não conhecia nem de nome, mas fiquei encantada.
    Adoro locais assim, e essas casa são espectaculares.
    Com a excelente descrição que fazes, a vontade de ir até lá é enorme. Já anotei, nas minhas notas pessoais, e deixa só aparecer um calorzinho (odeio frio) e um fim de semana lá, com o meu filho, está garantido!
    Obrigada pela óptima dica.
    Passei um fim de semana numa casa desse género, numa das aldeias do Xisto, e foi uma coisa assim do outro mundo. Maravilha!

    Feliz Terça-feira e uma boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:07 - Responder

      O nome é mesmo original, nunca mais se esquece. Não se arrependerão de visitar tão encantadora aldeia. Depois contem-me o que acharam.
      Beijinhos (as aldeias do xisto andam nos meus planos há ziliões de anos)

  7. Rui Barbosa Batista 4 Fevereiro, 2020 em 19:22 - Responder

    Posso dizer-te que o fim-de-semana que aí passei foi memorável… e que espero, muito sinceramente, voltar ao Juízo à primeira oportunidade. ADOREI. E contigo aconteceu o mesmo…

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:07 - Responder

      Precisas voltar para mais uma cabeçada no cano do juízo. Desconfio que o que trouxeste já se esgotou, hahaha

  8. Diego Cabraitz Arena 6 Fevereiro, 2020 em 13:38 - Responder

    Mais ovelhas que humanos? que interessante.
    Deve ser bem legal conhecer essa aldeia

    • Ruthia 6 Fevereiro, 2020 em 14:08 - Responder

      Em Portugal temos lugares assim, e não é preciso ir muito longe, embora esta aldeia fique bem no interior do país

  9. Marta 6 Fevereiro, 2020 em 14:21 - Responder

    Ora, nem são necessárias as três: apenas uma cabeçada no cano já faria perder o juízo, isto sim!

  10. Suriàn 6 Fevereiro, 2020 em 15:09 - Responder

    Nossa que legal esta aldeia… então não tem crianças por lá? 34 anos sem nascer ninguém… parece coisa de filme. Adorei

  11. Lulu Freitas 6 Fevereiro, 2020 em 18:07 - Responder

    Encantada com a Aldeia do Juízo e o seu lindo texto. Um lugar que parece ter parado no tempo e daqueles cenários que só Portugal pode oferecer.

  12. ana paula 7 Fevereiro, 2020 em 19:07 - Responder

    haha bem diferente a aldeia do Juízo… mas acho que se der cabeçada a gente perde ele, não ganha hahha

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