Templos do Mundo 4: Uma gárgula malcriada

A Sé é paragem obrigatória para quem visita a Guarda, bem no interior de Portugal, que diz a tradição ser Forte, Farta, Fria, Fiel e Formosa. Os adjectivos aplicam-se igualmente ao templo que hoje visitamos
 
Começamos na Galiza, onde conhecemos a majestosa Sé de Santiago de Compostela com o seu turíbulo gigante, para afastar o mau cheiro dos peregrinos medievais. Depois prosseguimos nesta incursão pelos templos do mundo e paramos na Andaluzia: foi na colorida igreja dedicada a Santo Ildefonso que nos protegemos do inclemente sol sevilhano…
Evocamos também o nascimento da nacionalidade portuguesa na capela de S. Miguel, onde o primeiro rei de Portugal terá sido baptizado.
Hoje, tropeçamos noutro templo imponente, sede de bispado, que demorou vários séculos a construir numa cidade fria (a Serra da Estrela está muito perto). Antigamente era assim, a arte dos canteiros demorava o seu tempo, os arquitectos estavam sempre a fazer alterações. Os reis, esses, o mais certo era morrerem antes de verem terminada a sua encomenda.
Antes desta, houve outra igreja da qual nada resta, mandada erguer pelo segundo rei de Portugal, D. Sancho I (1185-1211) de cognome O Povoador.
Foi já no reinado de D. João II que se iniciou este edifício que contemplam nas imagens, projecto que demorou quase dois séculos a terminar. Gabo a paciência dos monarcas, sabem!
Algumas gárgulas que enfeitam a Sé da Guarda…

 

Com vários estilos, precisamente pela morosidade da construção, gosto dos evidentes exageros do gótico e das pinceladas manuelinas que vemos na Sé da Guarda. Por entre pináculos, as gárgulas riem-se de nós, grotescas ou engraçadas.
Existe um porco anafado, a carantonha de um polícia local que um artista com humor decidiu caricaturar durante uma das reconstruções… mas a gárgula de “rabo-ao-léu” é a mais inusitada. E
malcriada.
Este par de nádegas está voltado para Espanha, numa atitude provocatória para com o reino vizinho. Há até quem lhe aponte uma interpretação bélica, pois a gárgula está alinhada com gárgulas-canhão. Não admira que andassem sempre em guerras…
As gárgulas têm uma importante função nos edifícios: canalizar e escoar as águas das chuvas, afastando-a das paredes e das fundações. Já perceberam por onde sai a água nesta estátua específica, não já? Por isso lá andam os turistas de nariz no ar, à sua procura.
O que eu não sabia – descobri-o com a pesquisa para este post – é que este rabo-ao-léu não é caso único no país. Não senhor! Nesta categoria existem outras cinco gárgulas, que podem ser encontradas na Igreja matriz de Caminha, na Matriz de Azurara, na Sé de Braga, no claustro de Santa Maria de Alcobaça e Santa Maria de Almoster (todas datadas da primeira metade do século XVI).
Portanto não é defeito, é feitio… ou uma moda muito inconveniente!
2018-12-10T19:24:20+00:00

27 Comments

  1. Nilson Barcelli 27 Janeiro, 2013 em 11:25 - Responder

    Gostei do teu berço do mundo.
    Um blogue interessante, sem dúvida.
    Um abraço.

  2. AC 27 Janeiro, 2013 em 12:22 - Responder

    Mergulhar na história é descobrir um pouco mais de nós mesmos.
    Conhecia a Sé, mas confesso que não a dita gárgula. 🙂

    Bj

  3. aonja 27 Janeiro, 2013 em 13:04 - Responder

    E eu que gosto tanto de gárgulas! Beijo grande!

  4. Dona Sinhá 27 Janeiro, 2013 em 23:26 - Responder

    Rhutiap
    Visitei, adorei e já estou te seguindo.
    Gostei mais ainda quando vi que está do outro lado do oceano. Terra querida mas que está me dando trabalho, pois tenho outro blog http://dona-sinha-internacional.blogspot.com, que trata apenas de culinária mundial e estou um pouco perdida em saber da culinária de Portugal (por regiões), se puder entra lá e me digas o que acha.
    Beijos
    Dona Sinhá

    • Ruthia 28 Janeiro, 2013 em 9:52 - Responder

      Olá Dona Sinhá, seja muito bem vinda. Vou visitar a sua cozinha logo que tenha oportunidade, claro 🙂 Não sou propriamente especialista em gastronomia mas ajudarei no que puder.

      Sobre a cozinha portuguesa, que é riquíssima, posso recomendar um site (www.portugal.gastronomias.com) e, caso tenha dúvidas sobre termos ou ingredientes pode sempre conversar com a minha amiga Madalena, do blog "A Panificadora Ribeiro (encontra o link aqui ao lado, no meu blogroll), que é uma simpatia e uma cozinheira portuguesa moderna e talentosa.

      Beijinho
      Ruthia

  5. ✿ chica 28 Janeiro, 2013 em 8:34 - Responder

    Lindo tudo e sempre bem explicado.Conhecemos nos encantando por aqui! beijos praianos,chica

  6. M. 28 Janeiro, 2013 em 10:06 - Responder

    E eu que tantas vezes passei, e entrei, na Sé de Braga, e nunca reparei na gárgula de rabiosque? Vou passar a andar mais atenta 😉
    Beijinhos e boa semana!
    Madalena

    • Ruthia 28 Janeiro, 2013 em 11:22 - Responder

      Olha, somos duas. Mas também aquilo é tão grande, dar a volta toda de nariz no ar…. ainda se dá um jeito ao pescoço 🙂

  7. Clara Lúcia 28 Janeiro, 2013 em 11:50 - Responder

    Essa gárgula chega a ser constrangedora… que coisa estranha…
    Eu fiquei olhando, tentando decifrar uma outra figura, aí continuei lendo e era aquilo mesmo que eu vi. Ri sozinha aqui, pela ousadia do povo daquela época, sem nenhum pudor.

    Perfeito texto, querida, como sempre!
    Beijos
    Ótima semana pra vc!

    • Ruthia 28 Janeiro, 2013 em 13:05 - Responder

      Nas barbas do clero, hehe (ou quem sabe, com a benção deles??!!)

  8. Adriana 28 Janeiro, 2013 em 12:39 - Responder

    adorei pois não sabia da utilidade das gárgulas!!! Novamente me ensina algo!! obrigada, bjs
    tititi da dri
    em tempo, o rabo ao céu é no mínino, inusitado, para não dizer uma provocação divertida! bjs

  9. Marineide Dan 29 Janeiro, 2013 em 14:40 - Responder

    Sempre aprendendo muito aqui… Adorei saber de tudo isto!

    Obrigada, um abraço!

  10. MINHA VIDA DE CAMPO 29 Janeiro, 2013 em 16:08 - Responder

    Olá, adorei conhecer um pouquinho da historia desse lindo país. Essas gárgulas a principio assusta, mas é interessante. Uma ótima dica para quem quer conhecer sua cidade. Gosto muito de castelos e igrejas. Amei seu blog cheio de dicas preciosas para os turista.
    Tenha um ótimo dia.

  11. Sílvia Gianni 29 Janeiro, 2013 em 17:35 - Responder

    Oi Ruthia,
    mais um belo texto e um passeio delicioso. E tudo coroado por uma gárgula "levada". Adorei tudo!
    Beijos e bons passeios.

  12. Manu 29 Janeiro, 2013 em 19:32 - Responder

    Que templo maravilhoso!
    Muito interessante essa informação sobre as Gárgulas,não sabia sua utilidade.
    Beijos.

  13. Anónimo 29 Janeiro, 2013 em 19:51 - Responder

    Também gosto muito de viajar, ver monumentos, saber histórias, infelizmente não tenho companhia (o meu filho adolescente não quer nem ouvir falar de tal coisa) e ainda não me decidi a avançar sozinha mas já estou mais perto de o conseguir 🙂
    Esta da gárgula está muito bem "apanhada" :d

    another blog in the sky

    • Ruthia 30 Janeiro, 2013 em 9:32 - Responder

      Eu ainda estou na fase da mãe-canguru, carrego o meu Pedrito para todo o lado. Imagino que isto não durará para sempre, hehe.

      Vou aproveitando, até porque o meu marido nem sempre quer sair e não aprecia museus como eu, mas aos poucos vou-o "educando" para quando formos velhos e, finalmente, tivermos muito tempo para passear, ele esteja sempre pronto 🙂
      Beijinho querida

  14. Stephanie 31 Janeiro, 2013 em 1:47 - Responder

    Esse lugar é tão histórico, que ao ir vendo as imagens parecia cenas de filme sabe?!
    Adorei conhecer a Sé daí rs!!
    Beijos,

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

  15. Anne Lieri 1 Fevereiro, 2013 em 20:15 - Responder

    Mas que beleza de passeio!Ficaram muito bonitas as fotos e adorei saber dessas curiosidades!bjs e boa sexta!

  16. M. 3 Fevereiro, 2013 em 18:12 - Responder

    Beijinhos e bom domingo!
    Madalena

  17. Anónimo 4 Fevereiro, 2013 em 10:00 - Responder

    Belo espaço o seu blog ! Ganhastes um visitante contumaz.
    Um forte abraço

    • Ruthia 4 Fevereiro, 2013 em 19:11 - Responder

      Fico feliz por ter mais um amigo que ama as palavras 🙂
      Um abraço

  18. Stephanie 5 Fevereiro, 2013 em 1:47 - Responder

    Querida, passando para lhe desejar uma ótima semana 😀
    Beijos,

    lolaporlola.blogspot.com

    Instagram: stephanieparizi

  19. Sissym 19 Fevereiro, 2013 em 19:48 - Responder

    Nossa, quanta riqueza historica. Muito bonito de ver e ter conhecimento.

    Bjs

  20. Francisco Gonçalves 23 Maio, 2013 em 16:22 - Responder

    Iglesia de San Pedro de Cervatos – procura google imagens pesquisa desactivada.

    • Ruthia 23 Maio, 2013 em 18:19 - Responder

      Olá Francisco, bem vindo. Fui pesquisar e fiquei estupefacta! Aquelas esculturas não são malcriadas, são pornográficas!! Obrigada pela dica 🙂

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