Alpedrinha, terra de pastores

Estava o viajante sorrindo, e agora impacienta-se porque precisa de que haja um silêncio sobre esta adormecida vida, que não acorda por brincarem uns garotos e gritar a mãe deles, mas só em expectativa total se entregará a quem nela entre. A brincadeira não acabava, a mãe não se calou com a monótona recomendação, e o viajante teve de retirar-se, foi apenas ver as ruínas do palácio, os fogaréus e urnas da entrada, as janelas entaipadas umas, outras abertas para o céu cor de leite. Veio descendo até à estrada e, quando lá chegou, olhou para trás. Estranha terra esta. A estrada passa-lhe ao pé, corta-a ao meio, e contudo é como se passasse entre dois muros que nada deixassem ver. Não faltam povoações escondidas, mas esta Alpedrinha é secreta.”

 

Partilho a estranheza de José Saramago, em Viagem a Portugal, quando percebo que a EN18 rasga ao meio esta pequena vila. De um lado, o casario encavalita-se na encosta da Gardunha, num novelo de pedra que acaba por se misturar com a mata e as figueiras selvagens. Do outro, pouco mais há que o apeadeiro do comboio e os pomares de cerejas.

É preciso subir as ladeiras para perceber o encanto desta vila do Fundão, descobrir os seus velhos palácios escondidos, beber a água gelada que cai na pedra musgosa dos seus muitos chafarizes. Estranho novamente ao dar de caras com a gigante igreja matriz de Alpedrinha, entalada no meio das ruas estreitas, paro para ler a inscrição na casa de D. Jorge da Costa, o filho mais ilustre da terra, um dos cardeais do Papa Sisto IV, que teve um papel importante no famoso Tratado de Tordesilhas**.

A grande surpresa espera-me no fim da calçada romana: não contava com a imponência do Picadeiro, um palacete barroco que, apesar de recuperado, parece que nos transporta para outros séculos.

 

A arte de José Joaquim dos Santos Pinto Delgado, marceneiro real, é demonstrada nesta peça inspirada n’Os Lusíadas.

 

Antes de entrar, refresco-me no não menos monumental chafariz de D. João V (já falei deste rei-sol português no post sobre Castelo Novo). Rematado com a coroa e armas reais, foi construído para “felicidade da pátria” pelas suas águas “explêndidas”. Diz-se que a bica da esquerda está destinada às crianças e solteiros, a do centro aos casados, e a da direita aos viúvos e bruxas...

Entro por fim no Picadeiro, onde a Câmara instalou um espaço de acolhimento aos turistas, que dá a conhecer a arte da “marchetaria” de um marceneiro local (produziu cadeiras para D. Carlos I e D. Amélia) e sobretudo os caminhos da transumância, que estão intimamente ligados à identidade local.

Um menino de sete anos, em plena visita escolar, explica-me tudo: “os pastores têm que levar as ovelhas para outro lado durante o Inverno, porque na Serra fica muito frio”. De resto, Alpedrinha honra anualmente esta tradição, com o Chocalhos – Festival dos Caminhos da Transumância, no terceiro fim-de-semana de Setembro.

Os visitantes podem mesmo acompanhar um rebanho durante um dia, fazendo parte deste caminho ancestral. Ora aí está uma experiência capaz de desvendar todos os segredos da terra… mesmo a Saramago!

** Assinado em 1494 entre o reino de Portugal e o de Espanha, dividindo o mundo (as terras descobertas e as por descobrir) entre as duas coroas.

Dica: o Palácio do Picadeiro tem entrada gratuita.

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2019-07-15T16:19:36+00:00

20 Comments

  1. Maria Teresa Valente 3 Julho, 2016 em 19:39 - Responder

    Boa tarde, Ruthia, encantam-me as tuas descobertas,
    cheias de beleza e detalhes, ligados à história de
    nossos antepassados.
    Tenha uma excelente semana, abraços carinhosos
    Maria Teresa

    • Berço do Mundo 3 Julho, 2016 em 21:59 - Responder

      Muito obrigada, Maria Teresa, pela sua presença sempre tão simpática.
      Abraço

  2. Marta Iansen 3 Julho, 2016 em 21:36 - Responder

    Incrível essa possibilidade de acompanhar rebanhos por um dia. Deve ser quase como entrar em uma máquina do tempo.

    • AC 9 Julho, 2016 em 15:27 - Responder

      🙂
      O mundo é mais abrangente do que julga, Marta. 🙂

  3. Toninho 4 Julho, 2016 em 11:27 - Responder

    Olá Ruthia, uma das mais belas apresentações que li.
    Assim a gente vai criando as imagens deste cantinho maravilhoso com todas suas curiosidades e tradições.
    Muito linda esta postagem que acelera uma vontade de conhecer e viver por um dia um lugar assim.
    Valeu amiga, bela generosidade.
    Meu carinhoso abraço de toda paz e feliz semana.
    Bjs de paz.

  4. Adriana LARA 4 Julho, 2016 em 16:55 - Responder

    amiga querida, mais um lugar a desvendar….. amei! bjs

  5. Andrea 4 Julho, 2016 em 18:08 - Responder

    Semmpre que me apresentas um lugar nestes teus escritos fico com vontade de conhecer pessoalmente. Fascina-me a forma como sinto esse lugar através dos teus olhos e das tuas palavras.

    • Ruthia 4 Julho, 2016 em 20:07 - Responder

      És sempre bem vinda nas nossas deambulações 😉
      Beijinho

  6. Jussara Neves Rezende 5 Julho, 2016 em 17:50 - Responder

    Seu texto é sempre saboroso, Ruthia, e hoje ainda vem acompanhado de Saramago… gostei demais!
    Abraço!

  7. Sissym Mascarenhas 7 Julho, 2016 em 21:26 - Responder

    Ruthia, espetacular o trabalho de arte de José Joaquim dos Santos Pinto Delgado, alias, inumeras obras arquitetônicas no Brasil vieram de artistas portugueses. Sobre poder se refrescar em chafariz local, não consigo lembrar qual chafariz na Cidade do Rio de Janeiro que podemos fazer isso com segurança higiênica.

    Bjs

    • Ruthia 8 Julho, 2016 em 7:54 - Responder

      Ah, mas são realidades completamente distintas, Sissym. Também não me refrescaria em qualquer chafariz em Lisboa. O interior é como se fosse um país diferente.
      Beijinho

    • Sissym Mascarenhas 12 Julho, 2016 em 3:15 - Responder

      Um encanto!

  8. Beatriz 9 Julho, 2016 em 14:35 - Responder

    Adoraria acompanhar um rebanho nessas terras! Parece que você voltou no tempo, não! Mais um belo passeio Ruthia!!!

    Bjs
    Bia <º(((<

  9. AC 9 Julho, 2016 em 15:25 - Responder

    Quem chega a Alpedrinha, sem qualquer informação, obrigatoriamente pela EN 18, que, qual espada, divide a povoação ao meio, segue o seu rumo, alheio que está a um enorme tesouro arquitectónico. Alpedrinha, concelho até finais do século XIX, enfeita a encosta da Gardunha duma forma peculiar, chegando a ser baptizada, pelos mais entusiastas, de Sintra da Beira. Exagero? Talvez, mas não haja dúvida de que uma visita a Alpedrinha, devidamente enquadrada (há monografias disponíveis) nos poderá transportar para um outro patamar.
    A visitar, seguramente!
    Já agora, estou disponível para uma visita guiada, tanto a Alpedrinha como a Castelo Novo. 🙂

    Um beijinho, Ruthia 🙂

    • Ruthia 9 Julho, 2016 em 15:50 - Responder

      Foi mais ou menos o que me aconteceu. Fui seguindo, à procura do centro e, quando dei por mim, já saía de Alpedrinha. Mas logo ali colocaram uma providencial rotunda para dar a meia volta…
      Também li esse epíteto sobre a "Sintra da Beira", com o qual não concordo, de todo. São ambientes tão distintos que não sei a quem lembrou tal comparação!

  10. Clara Lucia 10 Julho, 2016 em 18:41 - Responder

    Eu preciso aprender a ler Saramago. Comecei a ler e parei… Mas vou retornar, prometo a mim mesma!
    Esses lugares antigos que vc conhece, Ruthia, me faz crer que eu vivi num desses lugares e que as lembranças não foram muito boas. Qdo há o farol então, é motivo pra eu ficar refletindo e imaginando o que poderia ter-me acontecido.
    Uma linda semana pra vc família, Beijos!

    • Ruthia 11 Julho, 2016 em 9:29 - Responder

      Saramago é um desafio mesmo para leitores experientes. Mas depois de entrar no mundo dele, difícil é conseguir sair!
      Beijo, uma linda semana

  11. Unknown 20 Julho, 2016 em 15:56 - Responder

    Ruthia tens de conhecer outras aldeias na cova da beira

    • Ruthia 20 Julho, 2016 em 18:57 - Responder

      Pelo tom familiar, és alguém que me conhece. Esqueceste-te de assinar… P.S. Isso é um convite?

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